Kizito Mihigo, uma das vozes mais proeminentes da música sacra e contemporânea ruandesa, faleceu na noite de ontem em circunstâncias ainda não esclarecidas
A morte ocorreu horas após sua libertação da prisão de Kigali, onde cumpria pena de dez anos por acusações de conspiração contra o governo e participação em grupos armados. Mihigo, 38 anos, foi um dos artistas mais celebrados do país, conhecido por suas composições que mesclavam temas religiosos e sociais, além de sua atuação como docente em ciência da computação na Universidade de Ruanda, cargo do qual foi afastado em 2014 sob alegações de “falhas disciplinares”.
A trajetória de Mihigo, no entanto, é marcada por controvérsias que remontam ao pós-genocídio ruandês. Nascido em 1981, ele ganhou projeção nacional ainda na adolescência com canções como *Igisobanura Cy’Imana* (A Palavra de Deus), que se tornou hino de reconciliação após o massacre de 1994. Sua prisão em 2014, sob acusações de planejar atentados e colaborar com grupos rebeldes, foi vista por críticos como um ato de repressão política. O governo do presidente Paul Kagame, no poder desde 2000, negou qualquer motivação ideológica na detenção, classificando as acusações como fundamentadas em “evidências irrefutáveis”.
Fontes internas à Universidade de Ruanda, que pediu anonimato por questões de segurança, revelaram à imprensa local que Mihigo foi afastado de seu cargo em 2014 após denúncias de “comportamento incompatível com os valores institucionais”, embora não tenham especificado quais seriam essas condutas. A decisão ocorreu em meio a um contexto de crescente perseguição a intelectuais e artistas críticos ao regime, segundo relatórios da Anistia Internacional. Em comunicado à época, a universidade afirmou que a demissão de Mihigo não tinha relação com “atividades políticas ou musicais”, mas sim com “incumprimento de normas acadêmicas”.
Após sua prisão, Mihigo permaneceu em regime fechado na prisão de Mageragere, em Kigali, onde, segundo relatos de organizações de direitos humanos, foi submetido a condições desumanas. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch documentaram casos de tortura e negligência médica em detentos políticos ruandeses, incluindo Mihigo, que teria sofrido de doenças não tratadas durante o cárcere. Seu advogado, que também preferiu não ser identificado, afirmou que o cantor apresentava sinais de deterioração física nos últimos meses, embora não tenha recebido atendimento adequado.
A morte de Mihigo ocorre em um momento de tensão crescente no país, que enfrenta pressões internacionais por supostas violações de direitos humanos. Em fevereiro deste ano, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos publicou um relatório acusando Ruanda de perseguir opositores políticos, jornalistas e ativistas sob a justificativa de combater o “divisionismo étnico”. O presidente Kagame, por sua vez, tem repetidamente negado tais alegações, classificando-as como “invenções estrangeiras”.
Especialistas em política africana, como o professor Adebayo Adedeji da Universidade de Lagos, observam que a trajetória de Mihigo reflete a dualidade de Ruanda: um país que se apresenta como modelo de desenvolvimento na África Oriental, mas cuja estabilidade é mantida por meio de mecanismos autoritários. “Ruanda construiu uma imagem de modernização e eficiência, mas essa fachada esconde uma repressão sistemática à dissidência”, afirmou Adedeji em entrevista exclusiva. “A morte de Mihigo não é apenas a perda de um artista, mas um símbolo da fragilidade das instituições ruandesas quando confrontadas com críticas.”
O governo ruandês ainda não se pronunciou oficialmente sobre a causa da morte de Mihigo, limitando-se a confirmar a libertação por “razões humanitárias” horas antes do óbito. A prisão de Kigali negou acesso a familiares ou representantes legais para a realização de autópsia independente, o que levantou suspeitas entre ativistas. A família de Mihigo, contatada por meio de contatos indiretos, declarou à imprensa que exigirá uma investigação transparente, embora reconheça as dificuldades de enfrentar um sistema judicial controlado pelo executivo.
Enquanto isso, a comunidade internacional observa com apreensão os desdobramentos. A União Africana, tradicionalmente discreta em relação a Ruanda, emitiu um comunicado pedindo “esclarecimentos urgentes”, embora sem menção a sanções ou medidas punitivas. A União Europeia, principal parceiro comercial de Ruanda, limitou-se a expressar “profunda preocupação” e reafirmar seu compromisso com os direitos humanos na região. A morte de Mihigo, portanto, não apenas encerra uma vida marcada pela arte e pela resistência, mas também expõe as fissuras de um sistema político que se vangloria de estabilidade a qualquer custo.
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