Nairobi, 12 de outubro de 2023 — Uma equipe especializada do Serviço de Vida Selvagem do Quênia (KWS) concluiu, na manhã desta quinta-feira, o resgate de um filhote de hipopótamo recém-nascido após 36 horas de operação em região pantanosa do condado de Nyanza, sudoeste do país. O animal, que perdeu a mãe em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas, foi resgatado com auxílio do cadáver parcialmente decomposto do adulto, usado como âncora em meio à lama e à correnteza. Segundo comunicado oficial do KWS, a estratégia, embora tecnicamente necessária, representou um dilema ético para os envolvidos, dada a exposição prolongada ao material orgânico em decomposição.
A operação teve início na terça-feira (10), quando moradores locais alertaram as autoridades sobre a presença de um filhote de hipopótamo (Hippopotamus amphibius) sozinho em uma área alagada da Reserva Nacional de Ruma, região conhecida por inundações sazonais. Inicialmente, a equipe tentou conter o animal com redes, mas o recém-nascido, ainda com menos de 24 horas de vida, permaneceu agarrado ao corpo sem vida da mãe, resistindo a todas as tentativas de separação. Especialistas do KWS e veterinários do Santuário de Hipopótamos de Nairobi, consultados remotamente, concluíram que a única via viável seria utilizar o cadáver como suporte para alcançar o filhote sem risco de afogamento ou ferimentos.
O tenente-coronel John Waweru, diretor-geral do KWS, detalhou em entrevista coletiva que a decisão foi tomada após análise de risco-benefício, considerando a fragilidade fisiológica do animal e a ausência de alternativas seguras. ‘O filhote já apresentava sinais de desidratação e hipotermia. Não havia tempo para buscas de ferramentas adicionais’, afirmou Waweru, destacando que a operação contou com a participação de mergulhadores treinados em resgate de grandes mamíferos aquáticos. O cadáver da fêmea adulta, estimada em cerca de 1,5 tonelada, permaneceu parcialmente submerso, exigindo manobras coordenadas para evitar o afundamento do filhote.
Após o resgate, o filhote foi encaminhado ao Centro de Reabilitação de Espécimes Órfãos do Santuário de Nairobi, onde foi submetido a exames clínicos minuciosos. Segundo o veterinário-chefe do centro, Dr. Samuel Kimeu, o animal apresentava escoriações leves nas patas e sinais de estresse extremo. ‘Ele ainda não ingeriu leite materno, o que é crítico para sua sobrevivência a longo prazo. Iniciaremos o processo de alimentação com fórmula especializada nas próximas 12 horas’, declarou Kimeu, ressaltando que a ausência de colostro — anticorpos essenciais transmitidos pela mãe — aumenta os riscos de infecções. O centro já abriga outros três filhotes órfãos de hipopótamo, resgatados em operações similares nos últimos dois anos.
O caso reacendeu debates sobre a vulnerabilidade de populações de hipopótamos na África Oriental, espécie classificada como ‘vulnerável’ pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). O Quênia abriga uma das maiores populações de hipopótamos do continente, estimada em 12.000 a 15.000 indivíduos, segundo dados do último censo de 2022. No entanto, especialistas apontam que enchentes cada vez mais frequentes, associadas às mudanças climáticas, têm elevado os índices de órfãos e mortes de fêmeas adultas. ‘Os hipopótamos são extremamente territoriais e, em situações de cheia, as fêmeas lutam para proteger suas crias em áreas restritas. Este filhote provavelmente perdeu a mãe durante uma disputa territorial ou afogamento’, explicou a bióloga Dra. Esther Mwangi, pesquisadora da Universidade de Nairobi.
Autoridades do KWS também investigam as causas da morte da fêmea adulta, embora suspeitem de afogamento ou ataque por crocodilos-do-nilo (Crocodylus niloticus), predadores comuns na região. A necropsia está programada para os próximos dias, com resultados aguardados até o final da semana. Enquanto isso, o filhote será monitorado 24 horas por dia, com previsão de permanência no santuário por pelo menos 18 meses, período necessário para atingir a independência alimentar. ‘Este resgate é um lembrete da resiliência da vida selvagem africana, mas também da fragilidade de ecossistemas cada vez mais pressionados’, concluiu Waweru.
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