Movimento diplomático evidencia peso estratégico de Xi Jinping em meio à fragmentação global e à reorganização das alianças entre as grandes potências
A visita do presidente russo, Vladimir Putin, a Pequim nesta semana, para reuniões com o líder chinês Xi Jinping, ocorre oficialmente sob a justificativa da celebração dos 25 anos do Tratado Sino-Russo de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável, firmado em 2001. No entanto, o contexto internacional em torno do encontro amplia significativamente seu peso político.
A viagem acontece poucos dias após a passagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela capital chinesa, em uma sequência diplomática que expõe a centralidade crescente da China em um ambiente internacional marcado por disputas estratégicas, rivalidades econômicas e rearranjos de poder.
Rússia busca garantir espaço em meio à aproximação entre China e Estados Unidos
A agenda bilateral entre Moscou e Pequim deve incluir temas econômicos, comerciais e energéticos, além de debates sobre crises regionais e questões de segurança internacional.
Desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022, a China consolidou-se como o principal parceiro comercial da Rússia. Atualmente, Pequim responde por mais de um terço das importações russas e absorve mais de 25% das exportações de Moscou, tornando-se peça fundamental para a sustentação econômica do Kremlin diante das sanções impostas pelo Ocidente.
Além da cooperação comercial, persistem suspeitas sobre apoio indireto chinês à indústria militar russa. Uma investigação divulgada pela agência Reuters, em julho de 2025, apontou que empresas chinesas teriam utilizado companhias de fachada para enviar motores de drones à Rússia, ocultando os equipamentos como sistemas de refrigeração industrial. O governo chinês rejeitou as acusações.
Para o analista Claus Soong, do Instituto Mercator para Estudos da China (Merics), na Alemanha, o atual cenário internacional colocou Pequim em posição estratégica privilegiada.
Segundo ele, Washington enxerga a China como principal rival geopolítico, enquanto Moscou depende cada vez mais do apoio chinês para sustentar interesses energéticos, econômicos e diplomáticos.
Kremlin tenta evitar isolamento dentro da nova dinâmica global
A visita de Putin também é interpretada como uma tentativa de medir os impactos da recente aproximação entre Pequim e Washington.
Após encontros considerados positivos entre Trump e Xi Jinping, o Kremlin busca garantias de que uma eventual melhora nas relações sino-americanas não ocorra em detrimento dos interesses russos.
Para Putin, a prioridade imediata é reafirmar a parceria estratégica com Xi e compreender os limites da atuação chinesa diante do conflito na Ucrânia.
Claus Soong avalia ainda que Moscou pode começar a discutir cenários para uma eventual saída negociada da guerra. Segundo o especialista, sinais recentes — como um desfile do Dia da Vitória mais discreto e a continuidade dos ataques ucranianos contra estruturas petrolíferas russas — indicam desgaste crescente dentro do Kremlin.
O próprio Putin chegou a admitir recentemente que o conflito pode estar se aproximando de uma fase decisiva.
Dependência russa da China se aprofunda
Desde a invasão da Ucrânia, Putin e Xi mantiveram uma série de encontros bilaterais, reforçando uma relação que Pequim considera estratégica, embora cada vez mais assimétrica.
Especialistas avaliam que Moscou hoje depende mais da China do que a China depende da Rússia.
O professor Ding Shufan, da Universidade Nacional Chengchi, em Taiwan, afirma que o governo russo continua necessitando do mercado chinês para exportação de energia, além do acesso a cadeias de suprimentos e produtos de dupla utilização — com aplicações civis e militares.
Ainda assim, analistas ponderam que Pequim mantém cautela quanto ao grau de apoio oferecido à Rússia, calibrando sua atuação conforme os custos econômicos e diplomáticos.
China tenta equilibrar interesses estratégicos e estabilidade regional
Embora mantenha alinhamento político com Moscou, a China também evita aprofundar excessivamente seu envolvimento na guerra.
“A China não quer guerra; isso não atende aos seus interesses de longo prazo”, afirma Soong.
O analista destaca, porém, que Pequim teme o colapso de regimes considerados estratégicos, como os da Rússia e do Irã. Para os chineses, uma desestabilização profunda desses governos representaria riscos diretos à segurança regional e aos interesses econômicos chineses.
A Rússia continua sendo vista por Pequim como um parceiro estratégico importante, sobretudo pela extensa fronteira compartilhada e pela cooperação energética.
Energia russa ganha relevância diante das tensões no Oriente Médio
A instabilidade crescente no Oriente Médio também reforça o valor estratégico do petróleo russo para a China.
Em 2025, cerca de 18% das importações chinesas de petróleo vieram da Rússia, percentual superior ao do Irã, responsável por aproximadamente 13%. Já os países do Golfo Pérsico responderam por cerca de 42% das compras chinesas de petróleo.
As tensões envolvendo o Estreito de Ormuz e os riscos ao tráfego marítimo internacional ampliaram as preocupações energéticas de Pequim, enquanto as sanções ocidentais levaram Moscou a direcionar ainda mais suas exportações para o mercado asiático.
Com isso, a China amplia seu poder de barganha para negociar petróleo russo a preços reduzidos.
Relação sino-russa mantém alinhamento, mas sem “parceria ilimitada”
Apesar da retórica oficial de proximidade entre Moscou e Pequim, especialistas afirmam que os interesses dos dois países não são completamente coincidentes.
“China e Rússia são como um casal que divide a mesma cama, mas sonha coisas diferentes”, resume Claus Soong.
O analista observa que a China busca garantir segurança energética sem se tornar excessivamente dependente da Rússia, evitando ampliar o poder de negociação do Kremlin.
Ele também aponta que futuros acordos anunciados durante a cúpula podem representar apenas o início de processos longos e complexos, citando como exemplo o banco de desenvolvimento da Organização de Cooperação de Xangai, proposto por Pequim em 2010 e ainda não plenamente operacional.
Embora Xi Jinping e Vladimir Putin tenham declarado, em 2022, pouco antes da invasão da Ucrânia, que a amizade entre os dois países “não tinha limites”, autoridades chinesas posteriormente trataram a afirmação como mera retórica diplomática.
Mesmo assim, especialistas avaliam que Pequim continua enxergando vantagens estratégicas na manutenção de uma relação próxima com Moscou.
“Se a China tiver de calcular ganhos entre Europa e Rússia, a Rússia ainda oferece mais vantagens estratégicas”, conclui Soong.
( Com DW )




