Contexto histórico: da guerra comercial à escalada no Oriente Médio
A relação entre Estados Unidos e China, já tensionada pela disputa por hegemonia tecnológica e comercial, atingiu patamares críticos em 2025. A imposição de tarifas por Trump — inicialmente direcionadas à China como parte de sua estratégia de ‘America First’ — desencadeou uma resposta assimétrica de Pequim, que restringiu exportações de terras raras, minerais críticos para indústrias de defesa e alta tecnologia. Segundo relatórios do U.S. Geological Survey, os EUA dependem em 80% de suas importações de terras raras da China, o que forçou Washington a recuar em sua ofensiva tarifária.
Guerra no Irã: o xeque-mate inesperado que reconfigurou o poder
A ofensiva militar dos EUA contra o Irã, lançada em fevereiro de 2025, não apenas falhou em derrubar o regime de Teerã como também prejudicou interesses estratégicos chineses. A China, maior importadora de petróleo iraniano, viu seus planos de reabertura do Estreito de Ormuz — via crucial para 20% do petróleo global — serem adiados indefinidamente. Analistas como o geopolítico Marco Fernandes, do Conselho Popular do BRICS, destacam que a operação americana serviu mais para projetar Israel e conter a influência chinesa na Ásia Ocidental do que para atingir objetivos declarados. “Trump subestimou a resiliência do Irã e superestimou a capacidade de Washington de impor sua vontade sem consequências geopolíticas”, afirmou Fernandes em entrevista exclusiva à ClickNews.
Trump em Pequim: a derrota que ninguém ignorou
A reunião entre Trump e Xi Jinping, originalmente agendada para março, foi adiada após a escalada no Irã e agora ocorre em um cenário onde o presidente americano chega a Pequim não como um negociador dominante, mas como um ator enfraquecido. O reconhecimento público da derrota, até mesmo por figuras como Robert Kagan — um dos principais arquitetos da política externa intervencionista dos EUA —, reforça o isolamento de Washington. Kagan, em artigo publicado na Foreign Policy, admitiu que a estratégia de Trump contra o Irã resultou em um ‘fracasso estratégico’, ao não considerar as alianças regionais que sustentam Teerã. “Nunca um presidente dos EUA chegou a uma reunião com a China tão desmoralizado quanto Trump agora”, avalia Fernandes.
China mantém vantagem enquanto EUA buscam alternativas
Apesar das sanções e da guerra tarifária, a China consolidou sua posição como líder global em minerais críticos, controlando cerca de 60% da produção mundial de terras raras. Essa vantagem foi reforçada pela descoberta de novas reservas no Brasil, que detém a segunda maior jazida do mundo (22% do total), segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). Especialistas ouvidos pela ClickNews sugerem que o Brasil poderia explorar essa brecha para se posicionar como fornecedor alternativo, mas enfrentaria desafios logísticos e geopolíticos, como a pressão de Washington para não enfraquecer suas sanções contra Pequim.
Implicações para o Brasil: entre oportunidades e riscos
A guerra comercial EUA-China e a instabilidade no Oriente Médio abriram uma janela de oportunidade para o Brasil, que possui reservas estratégicas de nióbio, grafita e lítio — minerais essenciais para baterias, semicondutores e defesa. No entanto, a viabilidade dessa estratégia depende de investimentos em infraestrutura logística e de uma política externa que evite alinhamentos automáticos com Washington ou Pequim. “O Brasil pode se tornar um player relevante, mas precisa agir com cautela para não se tornar refém de interesses estrangeiros”, alerta a economista Débora Prado, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Além disso, a crise no Irã reforça a necessidade de o Brasil diversificar suas fontes de energia, reduzindo a dependência de petróleo do Oriente Médio. A China, por sua vez, já sinalizou interesse em parcerias no setor de biocombustíveis e energias renováveis com o Brasil, o que poderia redefinir as relações bilaterais em um cenário de multipolaridade.
Perspectivas para um novo equilíbrio global
A visita de Trump a Xi Jinping ocorre em um momento em que o mundo assiste à formação de um novo bloco de poder, onde a Rússia, aliada do Irã e da China, ganha relevância na mediação de conflitos. O BRICS, que deve incorporar novos membros em 2025, surge como uma alternativa aos organismos liderados pelo Ocidente. “A incapacidade dos EUA de impor sua agenda no Oriente Médio e na Ásia revela o declínio relativo de sua hegemonia. A China, por outro lado, aproveita para consolidar sua influência em regiões antes dominadas por Washington”, analisa o internacionalista Celso Amorim.
Enquanto Trump busca reverter sua imagem de fraqueza, a China já projeta sua estratégia de longo prazo: reduzir a dependência de commodities norte-americanas e fortalecer alianças com países do Sul Global. Se a visita de Trump resultar em algum acordo, será mais simbólico do que substancial, dado o atual estado de desequilíbrio de forças. O verdadeiro teste, contudo, será como o Brasil e outras nações emergentes irão navegar nesse cenário de crescente multipolaridade.




