Com poucas chances de localizar sobreviventes, parentes retornam aos escombros enquanto missões estrangeiras encerram operações de resgate no país
Famílias assumem nova fase das buscas após duas semanas da tragédia
Mais de duas semanas depois dos terremotos que devastaram o estado de La Guaira, na região litorânea da Venezuela, o cenário de destruição dá lugar a uma nova etapa das operações de busca. Com as possibilidades de localizar sobreviventes praticamente esgotadas, os esforços agora se concentram na recuperação dos corpos das vítimas que continuam desaparecidas sob os escombros.
Na tarde desta quinta-feira, Scarly Rojas, de 32 anos, vasculhava o que restou de um edifício de cinco pavimentos na tentativa de encontrar sua mãe, considerada uma das milhares de pessoas desaparecidas que, segundo familiares, não aparecem nas estatísticas oficiais divulgadas diariamente pelo governo venezuelano.
A mulher havia decidido voltar a morar com a mãe depois da operação conduzida pelos Estados Unidos que resultou no sequestro do então presidente Nicolás Maduro. No momento em que os terremotos atingiram a Venezuela, em 24 de junho, Scarly estava em Caracas.
“Com tudo que aconteceu no país, eu decidi morar com minha mãe, porque ela morava aqui e eu morava lá em Caracas. Estávamos distantes, então decidimos nos unir e voltar a morar juntas”, conta.
Mãe e filha viviam em um apartamento localizado no primeiro andar de um edifício situado na região de Praia Grande, uma das localidades de La Guaira mais castigadas pelos terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5. Além de Scarly, outros familiares também seguem procurando parentes que residiam no prédio. Mesmo diante do cenário devastador, algumas pessoas ainda preservam a esperança de encontrar sobreviventes.
Scarly, porém, acredita que essa possibilidade praticamente deixou de existir.
“Desde o primeiro dia, quando cheguei e vi a maneira como o prédio caiu, como nosso apartamento foi afetado, achei quase impossível que ela tivesse sobrevivido.”
Moradores apontam demora no início das operações oficiais
A atuação do governo venezuelano durante os primeiros dias após a tragédia tem sido alvo de questionamentos. De acordo com Scarly Rojas, as primeiras 48 horas — consideradas decisivas para o resgate de pessoas com vida — foram marcadas pela ausência de equipes especializadas, obrigando familiares e voluntários a iniciarem sozinhos as buscas.
Segundo o relato da venezuelana, apenas a partir do terceiro dia começaram a chegar grupos internacionais de resgate para atuar na região.
Agora, com o encerramento da fase de busca por sobreviventes, praticamente todas essas equipes já deixaram o país. Os parentes das vítimas voltaram aos locais destruídos para continuar a procura, desta vez em busca dos corpos daqueles que permanecem desaparecidos.
“Foi no terceiro, ou quarto dia, que as equipes estiveram aqui para fazer as buscas, mas depois de uma semana, a ajuda parou. Agora não tem ninguém”, lamenta Rojas, que retorna diariamente ao edifício onde morava para procurar, ao lado de outros voluntários, vestígios que ainda possam indicar o paradeiro de sua mãe.
Missão brasileira encerra atuação, mas hospital permanece em funcionamento
Nesta sexta-feira (10), parte da missão brasileira, uma das últimas forças internacionais a permanecer na Venezuela, inicia o retorno ao Brasil. A previsão é de que a aeronave com os integrantes das equipes de resgate desembarque em Brasília às 17h, no horário local.
O planejamento inicial previa a permanência da missão até o dia 13 de julho. Apesar da retirada dos socorristas, o hospital de campanha instalado em La Guaira pela Marinha do Brasil continuará operando por tempo indeterminado para prestar assistência à população afetada.
Enquanto isso, equipes argentinas seguem atuando na região e devem permanecer na Venezuela até sábado. Mesmo reconhecendo que o tempo reduz drasticamente as possibilidades de encontrar pessoas com vida, os profissionais mantêm as buscas.
“É verdade que, a esta altura, com os dias que já se passaram, as possibilidades de encontrar alguém com vida diminuem muito. Mas, bem, esse é o trabalho que fazemos. Vamos tentar até o último momento”, disse María Florencia Pizarro, chefe das operações de busca da Brigada ARG 10, durante uma breve pausa nos trabalhos, enquanto aguardava uma retroescavadeira remover blocos de concreto para permitir o avanço das equipes.
Recuperação dos corpos também é considerada missão humanitária
Para María Florencia Pizarro, a importância das operações não termina quando desaparece a esperança de encontrar sobreviventes. Segundo ela, devolver os corpos às famílias representa uma etapa fundamental do trabalho humanitário.
“Talvez não consigamos resgatar alguém com vida, mas também é importante devolver às famílias seus entes queridos, para que possam se despedir e realizar os rituais que cada povo tem para se despedir de seus mortos.”
Mesmo com a retirada de boa parte das equipes internacionais, os Estados Unidos anunciaram, nesta quinta-feira, o envio do navio anfíbio USS San Antonio ao Porto de La Guaira. De acordo com o Comando Sul norte-americano, a embarcação foi deslocada para “apoiar as operações de ajuda humanitária.”
No início deste mês, o comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, general Francis Donovan, informou que aproximadamente dois mil militares norte-americanos haviam desembarcado na Venezuela para participar das ações de apoio às áreas atingidas pelos terremotos.




