Panorama econômico e expectativas para o maior evento esportivo global
A três semanas da abertura da Copa do Mundo de 2026, marcada para 11 de junho na Cidade do México, o Brasil prepara-se para um fenômeno que transcende o esporte: a explosão do mercado de apostas esportivas. Segundo levantamento da Creditas em parceria com a Opinion Box, divulgado na segunda-feira (11/mai/2026), 56% dos brasileiros com mais de 18 anos pretendem participar de apostas ou bolões durante o torneio. O dado, colhido entre 561 trabalhadores de diferentes faixas de renda (R$ 1.600 a R$ 24.000 ou mais), projeta uma movimentação financeira sem precedentes no país, agravada por um contexto de endividamento recorde nas famílias brasileiras.
Perfil dos apostadores e motivações divergentes
A pesquisa divide os entusiastas das apostas em três grupos distintos. O primeiro, composto por jovens que não viveram o último título mundial da seleção brasileira em 2014 (69% do total), vê no evento uma oportunidade de entretenimento. O segundo grupo, formado por pessoas endividadas (79%), busca na prática uma forma de gerar renda extra para cobrir despesas mensais. Por fim, 15% dos entrevistados enxergam nas apostas uma estratégia para quitar dívidas – uma abordagem arriscada que pode agravar ainda mais sua situação financeira. A motivação principal, entretanto, é clara: 54% dos participantes buscam diversão e entretenimento, enquanto 31% almejam complementar a renda familiar.
Consumo descontrolado e endividamento: um ciclo perigoso
O estudo da Creditas/Opinion Box revela que 80% dos brasileiros admitem a possibilidade de consumir sem planejamento durante a Copa de 2026. Este comportamento, aliado ao atual cenário econômico, acende um sinal de alerta. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,9% em abril – o maior patamar da série histórica, que começou em 2010. A tendência de gastos não planejados durante o torneio pode agravar ainda mais esse quadro, especialmente se a seleção brasileira avançar nas fases decisivas. Caso isso ocorra, 47% dos entrevistados afirmam que aumentarão seus gastos, enquanto 14% reconhecem que se endividarão para vivenciar a experiência do Mundial.
Efeitos colaterais do fenômeno das apostas esportivas
A popularização das apostas esportivas no Brasil não é um fenômeno recente, mas a Copa do Mundo de 2026 deve acelerar sua expansão. Desde a legalização das apostas online em 2023, o mercado brasileiro registrou um crescimento de 300% no número de adeptos, segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). No entanto, especialistas alertam para os riscos associados a esse comportamento. O psicólogo esportivo Dr. Luís Fernando Souza, da Universidade de São Paulo, destaca que ‘o ambiente de euforia coletiva durante grandes eventos esportivos pode mascarar a percepção de risco financeiro, levando a decisões impulsivas’. Além disso, a prática de apostas entre jovens – grupo com maior índice de participação (69%) – preocupa autoridades, que temem o desenvolvimento de vício em jogos de azar.
Impacto no comércio e na economia nacional
A expectativa de gastos não planejados durante a Copa de 2026 não se limita às apostas. O setor de varejo projeta um aumento de 15% nas vendas de televisores, bebidas e produtos relacionados ao futebol, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm). No entanto, o otimismo do comércio contrasta com os dados da CNC, que indicam um endividamento crescente. A economista Ana Clara Oliveira, da Fundação Getulio Vargas, observa que ‘o consumo excessivo durante eventos como a Copa pode gerar um efeito chicote nas finanças das famílias, com reflexos negativos nos meses seguintes ao torneio’. A pesquisa da Creditas reforça essa preocupação: 74% dos entrevistados afirmam que pretendem gastar durante o evento, independentemente de sua situação financeira atual.
Perspectivas e recomendações para o consumidor
Diante desse cenário, especialistas recomendam cautela. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) emitiu comunicado alertando sobre os riscos de endividamento durante o torneio, sugerindo que os consumidores estabeleçam limites de gastos previamente. Além disso, a SPA reforçou a necessidade de regulamentação mais rígida sobre publicidade de apostas, especialmente direcionada a jovens. Para o economista Marcelo Neri, da FGV, ‘a Copa de 2026 pode ser um termômetro do comportamento financeiro dos brasileiros, revelando se a população está aprendendo com os erros do passado ou repetindo padrões insustentáveis’.
Conclusão: entre a paixão pelo futebol e a saúde financeira
A Copa do Mundo de 2026 promete ser não apenas um espetáculo esportivo, mas também um laboratório de comportamentos sociais e econômicos. Enquanto 56% dos brasileiros se preparam para participar de apostas e bolões, o país enfrenta um endividamento recorde, com 80,9% das famílias comprometidas com dívidas. A dualidade entre a euforia coletiva e a responsabilidade financeira coloca em xeque o futuro econômico de milhões de brasileiros. Cabe aos consumidores, às instituições financeiras e ao governo encontrar um equilíbrio entre a paixão pelo futebol e a saúde financeira, evitando que a emoção do torneio se transforme em uma armadilha para as próximas gerações.




