Especialista aponta calendário sobrecarregado, desgaste físico e pressão mental como fatores decisivos para aumento de contusões entre atletas de elite
A poucos dias do início da maior edição da FIFA World Cup 2026, o futebol mundial enfrenta um cenário preocupante: a ausência de diversos jogadores de destaque por causa de lesões. O aumento do número de partidas ao longo da temporada e a intensidade física cada vez maior do esporte têm sido apontados como fatores centrais para o crescimento das contusões, inclusive entre atletas jovens.
Segundo o fisioterapeuta esportivo Vitor Kenji, o atual calendário do futebol internacional chegou a um ponto crítico, especialmente após a ampliação das competições e o acúmulo de compromissos entre clubes e seleções.
Sequência intensa de partidas aumenta desgaste dos atletas
O especialista destaca que os jogadores chegam ao fim da temporada europeia em um nível extremo de desgaste físico, consequência de meses consecutivos de jogos de alta intensidade. Um exemplo citado é o do Paris Saint-Germain, atual campeão da UEFA Champions League e finalista do Mundial de Clubes, que já soma 65 partidas oficiais na temporada e ainda possui compromissos decisivos pela frente.
“O jogador vem de 10, às vezes 11 meses competindo praticamente sem parar. É o ponto de ruptura de um sistema que acumula fadiga crônica. São microlesões que vão acontecendo ao longo do tempo, sem recuperação completa. Aí, quando entra num jogo mais intenso ou decisivo, o corpo simplesmente não aguenta mais. Hoje o futebol exige muito mais explosão, mudança de direção, sprint. Isso sobrecarrega muito a musculatura. E, nessa reta final, o atleta já está jogando no limite físico; qualquer estímulo a mais pode virar lesão”, explica o especialista.
Copa de 2026 registra aumento de lesões entre jogadores jovens
Diferentemente de edições anteriores do Mundial, o torneio de 2026 apresenta um número elevado de desfalques entre atletas em plena fase de auge físico. Na 2022 FIFA World Cup, ausências importantes como as de Karim Benzema e Sadio Mané estavam associadas também à idade mais avançada dos jogadores.
Agora, nomes mais jovens aparecem entre os lesionados confirmados para o Mundial, como Rodrygo, Hugo Ekitike e Éder Militão. Outro caso recente envolve Estêvão, que ficou fora da pré-lista do técnico Carlo Ancelotti enviada à Confederação Brasileira de Futebol e só deve retornar aos gramados no segundo semestre de 2026.
“A preparação evoluiu muito em tecnologia e controle, mas o problema maior hoje não é nem a qualidade, é a quantidade. Os jogadores estão fazendo muito mais jogos por temporada. Antigamente já era pesado, mas hoje muitos chegam a 60, 70 partidas no ano. Hoje se monitora tudo: carga, aceleração, desgaste… está tudo mais preciso. Só que o corpo humano não mudou na mesma velocidade. Ele precisa de tempo para se recuperar, e esse tempo não está sendo respeitado. E tem o lado mental também. O atleta fica ansioso, com medo de perder espaço, de ficar fora da Copa… isso influencia diretamente no corpo.”
Controle de carga e trabalho integrado são apontados como solução
Para reduzir o número de contusões no futebol de alto rendimento, Kenji defende mudanças imediatas no controle de carga física dos atletas. O fisioterapeuta afirma que a dosagem entre treinos, jogos e recuperação precisa ser mais equilibrada para evitar novos problemas musculares e articulares.
“O atleta de alto desempenho não é sinônimo de saúde; está sempre no limite. Fortalecimento específico também é fundamental, principalmente para prevenir lesões musculares. E o mais importante: ter uma equipe realmente integrada. Médico, fisioterapeuta, preparador físico, psicólogo, nutricionista, todo mundo falando a mesma língua.”
Pressão por resultados amplia preocupação antes da Copa
Com menos de um mês para o início da competição, clubes e seleções passaram a intensificar os cuidados com jogadores considerados essenciais. O temor é que novas lesões comprometam ainda mais o nível técnico do torneio e privem atletas da oportunidade de disputar a principal competição do futebol mundial.
“No fim, o futebol é humano. O corpo não negocia com calendários; ele responde à física e à biologia. Preservar o atleta não é “mimar”, é inteligência estratégica. Como em qualquer empreitada humana, a grandeza está em respeitar os limites”, conclui Kenji.




